Quando pausei esta publicação, achei que a retomaria dali a um mês, quem sabe dois. Era o tempo de uma família recém-chegada da Espanha se organizar e se restabelecer em uma casa nova no seu país “de sempre”. Cinco meses depois, posso dizer que estamos bem acomodados, mas não totalmente adaptados.
Deixamos uma casa e voltamos para outra. E uma casa nova, mesmo quando tem móveis suficientes, é vazia. Precisa ser ocupada, abrigar histórias, criar memórias e ganhar corpo até se tornar um lastro para os que nela habitam.
Aí é arrumar os livros na prateleira, misturando os que tinham ficado guardados com os que vieram de navio. Duas vidas se fundindo para criar outra. A estante cheia de livros de receita, design, arquitetura e literatura me reconforta. Junto com a cozinha, disputa o lugar de coração da casa — um posto que vai se alternando entre um e outro a depender do dia, das emoções e da vibração.
Onde vão as panelas? O que guardar na primeira gaveta e na segunda? Aos poucos, algumas coisas vão ganhando seu lugar enquanto outras vão deixando claro que já não cabem mais nessa nova vida. Uma rotina se forma, mas não sem eu parecer uma barata tonta, de um lado para o outro, indo e voltando mil vezes até conseguir reunir tudo o que preciso para cozinhar.
Vocês e a newsletter fizeram falta. E isso foi bom: às vezes, a gente cai na rotina e deixa de curtir cada momentinho do processo. Volto muito feliz, cheia de ideias e tendo o Bruno Geraldi novamente ao meu lado para traduzir todas as receitas e conversas em imagens lindas — sejam elas fotos ou vídeos!
Espero seguir inspirando vocês a fazerem dos rituais em torno da mesa uma parte importante do dia a dia.
Até a próxima news,
Lena
PS: Você sabia que Lastro, num sentido coloquial, pode ser “qualquer comida com que se prepara o estômago para o prato principal ou para a ingestão de bebidas”? Eu não sabia…
UM VÍDEO E DUAS RECEITAS
Vou (re)começar pelo começo, com um preparo pra lá de básico: manteiga. Vamos fazer nossa própria manteiga usando apenas dois ingredientes e um utensílio. Na sequência, aprenderemos a fazer uma manteiga batida que rende um preparo muito cremoso e vistoso. Servi essa manteiga do vídeo em um brunch, no dia seguinte de feita, e meus amigos comeram como se fosse cream cheese!
A novidade fica por conta do vídeo, essa vontade antiiiga que vem tomando corpo com o olhar precioso do Bruno. Vamos aos poucos.
1. MANTEIGA CASEIRA
Aprendi a fazer minha própria manteiga com o primeiro livro de Luiz Américo, Pão Nosso: receitas caseiras com fermento natural. Isso foi em 2016, quando ele lançou o livro — que segue como uma boa pedida para quem quer aprender a fazer o próprio fermento (levain) do zero e usá-lo para diversos tipos de pães caseiros ou, ainda, outros preparos como manteiga, queijo cottage entre outros.
O processo é bem simples e consiste em bater, por um bom tempo, o creme de leite com uma pitada generosa de sal. Conforme o creme engrossa, vemos que ele vai endurecendo, ficando mais amarelo e um líquido se desprende. Isso são os glóbulos de gordura do creme se aglomerando e formando uma massa sólida: a manteiga.
O líquido esbranquiçado é o famoso leitelho [buttermilk], que aqui no Brasil não é comercializado como nos Estados Unidos — onde ele aparece em muitas receitas de bolos, biscoitos e tantos outros preparos. Não jogue o seu leitelho fora, porque vamos usar um pouquinho no preparo da manteiga batida. O que não for aproveitado nessa receita você pode usar de outras tantas maneiras. Eu mesma uso em sopas ou quando cozinho lentilhas, por exemplo. E ele é riquíssimo em proteínas.
POR QUE LAVAR A MANTEIGA?
Como este foi o segundo vídeo que produzi e ainda estou aprendendo, acabei me esquecendo de mostrar uma etapa que pode fazer sua manteiga caseira durar mais: lavá-la em água gelada.
Isso ajuda porque a água gelada faz com que a manteiga endureça e solte ainda mais resíduos para o leitelho remanescente — o qual, por sua vez, pode acelerar a deterioração. Ou seja, a lavagem proporciona maior estabilidade e maior tempo de conservação.
COMO LAVAR A MANTEIGA
Depois de espremer sua manteiga e tirar o excesso de leitelho, coloque-a numa tigela com água bem gelada e siga espremendo mais um pouco e limpando sua superfície por mais uns poucos minutinhos. Vá trocando a água até que ela fique transparente. Quando estiver pronta, descarte a água e guarde-a em um potinho hermético ou embrulhe-a em plástico filme.
2. MANTEIGA BATIDA
Agora que você tem uma manteiga caseira deliciosa, salgada de acordo com o seu gosto, vamos aprender a fazer uma versão cremosa e vistosa para elevar qualquer mesa de entradas ou de café da manhã!
O preparo consiste em bater a manteiga com algumas colheradas do leitelho até que ela fique mais esbranquiçada e beeem cremosa. Quantas colheradas? Vamos acrescentando, batendo e olhando. Mas algo em torno de cinco colheres de sopa. É claro que você pode preparar esta com uma manteiga comprada pronta. Neste caso, use creme de leite fresco ou iogurte no lugar do leitelho.
O importante é bater bastante e, como disse no vídeo, eu mesma poderia ter deixado a minha bater por mais uns minutinhos.
VARIE OS SABORES
Essa manteiga pode ser saborizada por um sem fim de possibilidades: alho e ervas, anchovas e raspas de limão, mel e missô ou até mel com canela para um versão mais doce.
A Sarah Copeland fez uma edição da newsletter dela dedicada ao tema.
PARA BABAR | A NOVA COZINHA DO OTTOLENGHI
Eu acho uma delícia ficar vendo cozinhas bonitas — e é ainda mais legal se a cozinha for de alguém do mundo das panelas de que gosto muito. Pois Ottolenghi reformou sua cozinha e ela ficou linda. Dá só uma olhada:
Ela foi projetada por Craig Matson, fundador da empresa de cozinhas Roundhouse, e tem os ladrilhos desenhados pela artista norueguesa Cecilie Maurud Barstad, quem já havia criado outras artes para os restaurantes de Ottolenghi — que totalizam dez endereços em Londres.
Ele diz que foi finalmente convencido pelo arquiteto a trocar seu fogão a gás por um de indução e diz que, depois de aprender a usar, se tornou um convertido!
Leia a matéria na íntegra aqui.
PARA LER E REFLETIR | O FIM DA FOME
“A comida, despida de prazer sensual, ou de deliciosidade (ou, como o povo da ciência gosta de falar, palatabilidade) pode alimentar nosso corpo, mas não nutre nossos desejos de prazer, tão importantes e necessários quanto a nossa necessidade de vitaminas e energia.”
O que era para ser um remédio revolucionário na cura de uma doença, como comentou Mari Krueger, se tornou uma droga banalizada que é usada incorretamente, sem prescrição e até adquirida de maneira clandestina. As discussões em torno das canetas emagrecedoras são muitas, já que elas impactam diversas esferas da vida — para o bem e para o mal.
A cozinheira Gabriela Barretto escreveu uma ótima reflexão sobre a sua própria experiência com o uso da medicação e a consequente perda da fome e dos desejos:
“O filósofo Epicuro acreditava que “o prazer é o princípio e o fim de uma vida feliz. Não o prazer dos excessos, mas o prazer simples e totalmente acessível de se deliciar com um mero pão com manteiga. Despidos dessa capacidade, de apreciar as pequenas (e grandes) oportunidades de prazer que a comida nos proporciona, viramos autômatos para quem a mera energia de subsistir é suficiente.”
Leia na íntegra aqui!
PARA AGUARDAR | CATE BLANCHETT COMO MARTHA STEWART
A atriz Cate Blanchett irá interpretar ninguém menos que a diva da culinária Martha Stewart em Good Thing, nova biopic desta que foi a primeira self-made bilionária e ainda precursora das influenciadoras de lifestyle. A direção será de Janicza Bravo (Zola) e ainda não tem previsão de estreia.
Leia mais aqui.
PARA ASSISTIR | MADDIE’S SECRET
O comediante estadunidense John Early acaba de lançar o filme Maddie’s secret (ainda sem tradução para o português) — um projeto audacioso que ele escreveu, dirigiu e estrelou.
O filme conta a história de Maddie, uma lavadora de pratos em uma cozinha de testes que se vê transformada em influenciadora e sofre com transtornos alimentares. O que faz deste projeto ousado é ele ter muitas camadas. Segundo o New York Times, é “um drama psicológico audacioso otimista que também é uma comédia calibrada à perfeição. Desde sua estreia no outono, o filme tem se mostrado estranhamente difícil de caracterizar, sendo chamado de sátira, homenagem, crítica e até mesmo filme de terror. De forma mais simples, é uma pastiche do melodrama feito para a TV, um estilo moribundo ressuscitado com um polimento visual impecável e uma generosa dose de piadas inteligentes.”
Eu fiquei curiosa! Se você também, pode assistir ao trailer aqui ou ver o bate-papo de John Early e Alison Roman sobre produção de conteúdo gastronômico aqui.
Nos Estados Unidos, o filme já está disponível no Prime Vídeo. Aqui, aparece listado, mas ainda indisponível.
PARA USAR | ÍNDICE DE RECEITAS
Vocês nem imaginam o trabalhão que deu para organizar o índice de receitas da newsletter! Mas fico muito feliz em vê-lo à disposição de vocês. Ali, vocês encontram todas as receitas já publicadas ao longo dos últimos sete anos, distribuídas em mais de duzentas edições desta publicação.
Vale a pena dar uma passada por lá, porque há muita coisa gostosa para variar o cardápio do dia a dia.
PARA CELEBRAR | M. F. K. FISHER
Hoje, M. F. K. Fisher — a grande diva da escrita gastronômica — completaria 118 anos!
*“Me parece que nossas três necessidades básicas — por comida, segurança e amor — estão tão misturadas, entrelaçadas e intrincadas que não podemos pensar diretamente em uma sem as outras. Então acontece que, quando escrevo sobre a fome, estou realmente escrevendo sobre o amor e a fome por ele, e o calor e o amor por ele e a fome por ele... e depois o calor e a riqueza e a fineza da fome satisfeita... e é tudo uma coisa só."
Créditos:
Fotos e vídeo: Bruno Geraldi | Revisão: Eloah Pina










Muito feliz com o seu retorno!
Adorei tê-la de volta! Acabei de voltar de Copenhagen e lá essa whipped butter é um "clássico"! Fui em um café da manhã promovido por uma loja de eletrodomésticos e eles estavam batendo a manteiga na hora, depois colocando em um prato dessa maneira festiva, parecendo uma escultura, como você fez! Adorei! 😍